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1. HISTÓRIA

Na Europa

A pólvora aparece na Europa no século XIII, e essa aparição encontra-se igualmente não documentada: O veneziano Marco Polo conheceu-a durante seus 17 anos na China e a haveria descrito em seu célebre relato: “O Livro das Maravilhas do mundo”, do qual, apesar de suas inumeráveis cópias, foi extraviado o manuscrito original. O monge alemão Berthold Schwarz foi seu descobridor, com absoluta independência de seu uso no Oriente. Como Roger Bacon chegou à célebre mistura, “o doutor admirável”, monge inglês, nascido em 1214, que não tardou em descobrir e propiciar seu aproveitamento militar.

Em todo caso, no século XIV, a Inglaterra e a Alemanha já contavam com manufaturas importantes, e no século XVI, diante do poderio que outorgava esse “pó mágico”, a maioria das fábricas era monopólio do Estado em quase todos os países. As primeiras regulamentações concernentes ao seu uso aparecem um século depois.

Durante o século XV, a grande maioria dos judeus sefarditas, que fugiam da perseguição espanhola, se estabelecem na Turquia, onde se dedicam a diversas atividades artesanais, e em especial, à fabricação de pólvora para o exército turco.

Em 1539 surge a obra póstuma do italiano Vannoccio Biringuccio, “A pirotecnia”, considerado o primeiro tratado sobre a arte e a manufatura. De grande clareza, essa obra trata dos aspectos químicos, da destilação e da fabricação.

Façamos, à esta altura, um comentário: a pirotecnia durante a Idade Média, assim como seus destacados investigadores, aparentavam-se mais ou menos com o que seria o antepassado da ciência, ou, pelo menos, da química: a alquimia. Efetivamente essa disciplina, embora em nossos dias pareça ingênua e pretensiosa (pois procurava transformar qualquer metal em ouro, descobrir a pedra filosofal, que permitiria a qualquer substância chegar à perfeição e, além disso, e como último objetivo, alcançar a vida eterna), permitiu descobrir numerosos elementos e métodos que logo se aplicariam mais “racionalmente”.

Roger Bacon, suspeito inventor europeu da pólvora, é considerado o primeiro alquimista da Europa e Biringuccio, através de sua obra, realizou numerosas contribuições à disciplina. Mais tarde, o francês Lavoisier, que terá também um papel protagonista na história da pólvora, é considerado um dos alquimistas que mais de aproximou da química atual.

A enciclopédia Encarta fala de duas escolas pirotécnicas que cresceram durante o renascimento na Europa: a italiana e a alemã (Nuremberg). A primeira se especializou no aspecto artístico, enquanto que a segunda enfatizou os avanços científicos.

Com a pólvora, os fogos de artifício começaram simultaneamente seu caminho na Europa, caminho vertiginoso para os lentos ritmos de então, em busca de novas formas e efeitos. Tendo conhecido antecipadamente os efeitos ouro e prata, a busca se referia agora especialmente na produção da cor. Desafio difícil, porque era necessário produzir antes um fogo transparente para não tornar opaco, nem desnaturalizar as tonalidades tão procuradas, mas suficientemente quente para vaporizar os diferentes compostos químicos responsáveis pelas tonalidades.

Em 1789 o especialista químico francês Claude Berthollet (co-autor com Lavoisier de um novo sistema de nomenclatura química, que constitui a base da utilizada em nossos dias) descobre as propriedades descolorantes do cloro, inaugurando a época da lavandina, e não tarda em relacioná-las com os explosivos. Assim, a partir do ácido clorídrico, sintetiza pela primeira vez explosivos cloratados e descobre ao mesmo tempo que o ácido clorídrico não apenas torna transparente a chama, como também intensifica as cores. Assim fica aberta a porta de dá passo para a elaboração de luzes de cores, para o desenvolvimento e aperfeiçoamento, que se prolonga até nossos dias. Lavoisier, por sua vez, se converte em 1788, nas vésperas da Revolução Francesa, no responsável técnico da Régie Royale de Poudres [Administração Real da Pólvora], monopólio que fez da França o maior produtor de pólvora de guerra, de ótima qualidade para a época.

Enquanto isso os espetáculos europeus se multiplicam e a pirotecnia conhece um crescimento deslumbrante, documentado desta vez por abundantes relatos, gravações e crônicas. Os sucessos destinados a transformar-se em história, como as bodas reais, os tratados de paz, os triunfos bélicos, eram comemorados com fogos de artifício e reuniam num mesmo evento povo e realeza.

Enormes ornamentos serão vistos, de cuja construção participam os maiores arquitetos, carpinteiros e pintores das cortes reais. Essas enormes cenografias servem para colocar as peças pirotécnicas e para ocultar manobras dos pirotécnicos. Terão ainda a missão de transmitir o conteúdo conceitual e as alegorias dos sucessos festejados, através de símbolos compreensíveis para todos, sendo suporte do “roteiro narrativo” indispensável na arte daqueles tempos.

Assim, por exemplo, dizem às crônicas que em 1487, na Inglaterra, por ocasião da coroação de Elizabeth de York, viúva de Eduardo IV da Inglaterra, o espetáculo pirotécnico se estendeu ao redor de um dragão esculpindo chama de fogo sobre o Tamisa.
Em 1543, em Salamanca, Espanha, por ocasião do casamento de Felipe II com Maria de Portugal, é igualmente um “dragão liberador” que manifesta o fogo.

Em 7 de abril de 1612, em Paris, ocorre o casamento de Luís XIII e Ana da Áustria. Esta bodas, que permite presumir o fim das hostilidades entre França e os Habsbourg, conta com um magnífico espetáculo de fogos de artifício, que se realiza ao redor de um enorme ornamento representando o templo da Felicidade.

Desde o século XVI os carpinteiros valencianos iniciam a tradição de uma das festas populares mais importantes da Espanha: as Fogueiras de Valência, onde não faltam os fogos de artifício. Desde suas origens, relacionados presumivelmente com achegada da primavera, esses artesãos incendiavam os candelabros feitos de madeira (“parots”) que haviam utilizado para iluminar-se durante as horas escuras do inverno. Mais tarde, esses candelabros de vários braços foram revestidos com roupas velhas, para representar algumas personagens do povo, e deram origem aos, hoje, tradicionais bonecos das fogueiras.

Na Itália, desde 1662 ocorre um dos mais famosos festejos da história da humanidade, carregado de profundos conteúdos simbólicos: o Carnaval de Veneza, que conta, certamente, com grande desenvolvimento de fogos de artifício. Essa festa origina-se, aparentemente, nos dias que precedem a quaresma, e seu nome provém do latim “carnelevare” (deixar a carne).

Em 27 de agosto de 1739 ocorre uma das mais luxuosas festas do século XVIII: o casamento de Louise-Elizabeth, filha de Luís XV, com Felipe, infante da Espanha. Os pirotécnicos (mestre Dodemant e mestre Testard) colocarão seus efeitos sobre um ornamento, encarregado a Servandoni, cenógrafo da corte: o templo do Hímen. Mas a pirotecnia se encontrará também sobre o cenário octogonal flutuante (sobre o Sena) que acomodará os músicos da orquestra.

Previamente, uma frota de embarcações leves realiza diversas demonstrações náuticas, para entreter a imensa multidão que se reuniu desde o início da tarde. Chegada a noite, o Rei dá início ao espetáculo, acendendo o “courantin” (hoje conhecido como rocket [foguete]), que é uma vara presa a uma corda, que dirige seu percurso, e que dispara as salvas dos canhões municipais e da artilharia que dão início à pirotecnia.

“...um espetáculo cujas imagens, desde as estátuas de divindades pagãs, até a vestimenta brilhante do próprio Rei, coberta de diamantes, propagava a idéia de um Rei-Luz, do qual os fogos de artifício aparecem como uma emanação própria: ainda que tenha sido realizado pela Prefeitura de Paris, o encantamento foi finalmente considerado uma obra de Luís XV.”4

Em 1748 foi assinado o tratado de paz de Aix-la-Chapelle, entre França, Inglaterra e Holanda, pondo um fim na Guerra de Sucessão Austríaca. Para comemorar esse sucesso, o Rei Jorge II da Grã Bretanha ordena a execução de um majestoso espetáculo de fogos de artifício, que foi realizado em 27 de abril de 1749, em James Park. A música, obra de Georges Haendel, foi composta especialmente, a pedido do Rei, que, além disso, exigiu a ausência absoluta de violinos. O maestro concebeu então essa obra extremamente original, cuja magnífica abertura, com instrumentos marciais, dá lugar ao início da pirotecnia com “um fogo real de cento e uma salvas de artilharia”.

Mr. Charles Frederick, “Controlador de Fogos de Artifício de Sua Majestade, tanto para a Guerra como para o Triunfo”, conjuntamente com Servandoni, o famoso cenógrafo da corte da França, desenham uma fabulosa “máquina”, onde foram colocados os artefatos pirotécnicos. Esse ornamento incrível contava com quadros alegóricos, representando Britânia, Marte e Netuno.
A partir desses poucos exemplos mencionados, talvez se compreenda melhor a importância e o peso social dos espetáculos de fogos de artifício: à importância histórica do evento a ser comemorado, por um lado, e à grandiosidade da execução da obra, que envolve centenas de pessoas, se soma o caráter de instrumento comunicativo, de portador de mensagem, de alcança a categoria de proclamação política, potencializada quando, além de tudo, e pelas características dos sucessos comemorados (bodas reais, tratados de paz...), muito freqüentemente diziam respeito a duas ou mais nações.

Para que esta breve análise seja completa e que não reprovemos às cortes esbanjamentos desproporcionais, saibamos que o ministro Jean Baptiste Colbert (1619-1683), o famoso “cientista da economia”, que foi responsável por grande parte do florescimento econômico da França, durante o reinado de Luís XIV, graças ao seu conceito mal chamado de “dirigismo” e intitulado de chauvinista, através do qual o estado é responsável por criar as condições de crescimento e desenvolvimento econômico da nação, para o benefício do conjunto da população, em momentos de guerra e pobreza, preparava luxuosas festas pirotécnicas, difundindo-as intensamente, porque a conseqüente convocação de estrangeiros ao espetáculo não apenas cobria os gastos, mas também proporcionava lucros substanciais7. Um conceito que, na Europa, continua ainda vigente.

Fonte Brasil: Aparecida Gontijo


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